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quinta-feira, 11 de agosto de 2011

de jeito

Concluo: o problema não são os homens que não sabem ao certo o que fazer com uma mulher; são os que sabem demais.

Homens que precisam de instrução existem aos montes. Que mulher nunca teve que orientar: "mais devagar", "menos força", "beija aqui"? Absolutamente normal.


Mas aquelas já encontraram um homem que sabia exatamente o que fazer irão concordar: impossível não cair de quatro, literalmente ou não, quando se está nas mãos de um homem desses. Tal sabedoria não tem regras ou fórmulas: varia de pessoa para pessoa. É química e encaixe.

Conheci um homem assim: não precisou de palavras para me convencer. Eu não precisei saber de detalhes para querer. E ainda que eu só soubesse que ele fuma e gosta de coca-cola, continuaria querendo, por mais que depois de uma, duas, três vezes, não houvesse conversa alguma. O que ele sabia fazer comigo me bastava.

Quanto aos que não sabem: eles aprendem, e tendem a ficar ótimos depois de um tempo. Mas aqueles que não precisam de instruções são absurdamente irresistíveis. E inesquecíveis.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

tão banal

"O táxi dobrou a esquina, não houve tempo de dizer pr'!. Corríamos pela Barata Ribeiro, entrecruzamentos, travestis e o frenesi de Copacabana, mon amour
A voz do radialista encobria a seresta que badalava vadia do meu peito descabelado
Metíamos os pés pelas mãos, as mãos pelas pernas, as pernas abertas, calcinha rasgada
O motorista disfarçado de colunista social que participa da festa sem beber champanhe
Buzina ensandecido e o teu corpo se abrindo

Você não me detia, eu te metia
À espera do túnel
pra gozar em paz"


De um amigo.

eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios

Acordo e vejo que recebi e-mail de um amigo, dizendo que quer me mandar dois trechos do livro que ele está lendo. O livro é "Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios", do Marçal Aquino.

O primeiro, diz ele, combina com meu blog. O segundo, com a vida. Abaixo, os dois.

O nome dela é Sandra, eu disse.

No livro que eu tinha na mão, o único sobrevivente da minha biblioteca, Schianberg escreveu: o detalhe é alma de toda fantasia. Qualquer detalhe, por inusitado ou pervertido que seja. Daí os fetiches. A particularidade do desejo. E um detalhe pode tornar-se muitas vezes mais excitante que a própria fantasia. Dei razão a Schianberg ao presenciar a reação do meu vizinho.

Sandra, ele repetiu, alheio.

Como se saboreasse o nome. Seus olhos brilharam com promessas de noites solitárias de luxúria. Daí, voltou a si e me olhou. E disfarçou, inclinando nos autos uma informação desnecessária.


***

Tem sido assim os meus dias. Sou mais feliz que 97,6% da humanidade, nas contas do professor Schianberg. Faço parte de uma ínfima minoria, integrada por monges trapistas, alguns matemáticos, noviças abobadas e uns poucos artistas, gente conservada no caldo da mansidão à custa de poesia ou barbitúricos. Um clube de dementes de categorias variadas, malucos de diversos calibres. Gente esquisita, que vive alheia nas frestas da realidade. Só assim conseguem entregar-se por inteiro àquilo que consagraram como objeto de culto e devoção. Para viver num estado de excitação constante, confinados num território particular, incandescente, vedado demais. Uma reserva de sonho contra tudo que não é doce, sutil ou sereno. É o mais próximo da felicidade que podemos experimentar, sustenta Schianberg.

Não sei que nome você daria a isso.

Bem, não importa muito, chame do que quiser.

Eu chamo de amor.  
   


O livro, diz ele, vai me emprestar. Eu aguardo.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

esse cara (que nunca será meu)

"ele está na minha vida porque quer
e eu estou pro que der e vier"

Me pego pensando em comprar bombons para o rapaz que nunca será meu. Há quase quatro dias ele não aparece e eu só quero saber de vê-lo sorrir. Logo afasto a ideia dos bombons, e do sorriso dele, e da minha saudade do sorriso dele, porque ele nunca será meu e eu não posso me deixar enganar pela ideia de querer fazê-lo feliz.

Ele é o cara da música do Caetano, que chega ao anoitecer e quando vem a madrugada ele some.

Ele não sabe da minha vida além daquilo que ele vê entre quatro paredes, e eu tampouco sei da dele. Quando deixo escapar um detalhe que vai além das furtivas cenas que acontecem entre nós dois, me sinto fraca e constrangida por, em um momento, ter perdido o controle de toda a situação, por cometer qualquer deslize que denuncie afeto, ternura, paixão. 

Quando ele vem me contar como foi seu dia, eu desconverso e só beijo-o e então faço com que se cale, porque eu não quero saber dos detalhes que também nunca serão meus, das pessoas da vida dele que nunca vão fazer parte da minha vida e das vontades que ele nunca vai realizar ao meu lado.

Ele não sabe do meu passado, da minha família ou do meu trabalho, mas conhece cada poro do meu corpo, cada marca, cada detalhe, cada reação, e eu penso que é nessas horas, quando ele mal consegue dizer meu nome, e quando eu não sei ao certo a cor dos olhos dele, que ele é de verdade meu. E nessas horas a mim pouco importa que em tantas outras horas fora dali ele nunca seja meu.

domingo, 3 de julho de 2011

olha pra mim

Das tantas vontades e taras sexuais, tenho certeza que o exibicionismo e o voyeurismo são as mais comuns. Todo mundo quer ver o que o outro faz entre quatro paredes.  Porque é excitante, porque nos faz sentir mais normais, porque nos dá novas idéias, porque inspira.


E alguns - aqui não arrisco dizer o porquê - querem também ser vistos.

Ocorreram-me nessa vida duas chances de passar por experiência em que eu poderia ver e ser vista – ou quase isso. Não necessariamente enquanto fazia sexo, embora eu pudesse fazer, caso quisesse. 


A chance de ser visto sempre existe, mas falo aqui de situações propositais. 

Na primeira vez, perdi o foco e não me dei conta de toda a situação. Foquei em mim e em quem estava comigo e preferimos sair de cena.

Na segunda vez misturamos propositalmente inocência e curiosidade e demos um jeito de não saber o que nos esperava, já tendo certeza de como aquilo poderia terminar.

Eu estava em uma dessas casas noturnas com dark room, aquele lugar escuro onde as pessoas entram e deixam o pudor do lado de fora.  E como eu tinha uma boa companhia, e umas duas doses de vodka, achei que poderia ser bom. Ele aceitou a proposta.

O dark room em questão tem forma de labirinto. Há várias salas onde é possível conseguir certa privacidade, limitada pelas portas sem tranca e pelos buracos na parede.

A idéia inicial era ficar em um cantinho, nós dois. E assim foi até que, enquanto uma das mãos dele estava na minha nuca e a outra na minha cintura, havia uma terceira mão na minha coxa. E uma mão que não era minha na cintura dele. 
O primeiro reflexo foi desviar de tudo. Só o primeiro. Depois, o que acontecia entre nós dois ficou tão interessante que as coisas externas - as mãos, os olhares - viraram apenas um detalhe divertido. E quem quisesse ver, que visse. E quem quisesse tocar, que tocasse. Era como se, estando naquele jogo, fosse falta de respeito privar terceiros e quartos de uma coisa tão boa.
O jogo parou antes do fim. As luzes se acenderam e nós rimos. 
E eu descobri que estou mais para exibicionista do que para voyeur. Gosto de ser vista, ainda que seja no escuro, ainda que eu não veja o rosto de quem me observa.

terça-feira, 28 de junho de 2011

desconhecido

A primeira imagem que surge diante dos meus olhos é a janela. Minha janela. Meu quarto; e a sensação é de alívio. Atrás de mim, quase na minha nuca, sinto a respiração. Ainda diante de mim, bem embaixo da janela, está a prova do crime: minha calcinha. É o que minha vista alcança: minha janela e minha calcinha. A memória se esforça para, a partir de então, compor a cena: o antes, o durante.

A festa. O rapaz de branco. De branco, com um copo na mão e me olhando. Nós dois em um banheiro que não tinha luz. Eu tentando ter certeza de que a porta estava trancada. A mão na minha cintura, a pressa, o riso. Meu sapato no chão. A caminhada até a minha casa.  Eu acordando na minha cama.

A mão na minha cintura me encoraja. Viro, arrumo meus cabelos. Os olhos dele já estão abertos. Castanhos. Bonitos. Ele sorri um sorriso lindo. E me beija. Sorrio de volta, agradecida. Aliviada.

A primeira vez em que se acorda com receio de olhar para a pessoa ao lado é mesmo inesquecível.