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quarta-feira, 3 de agosto de 2011

carta para Karen

Comentário sobre o post abaixo: "Gostei do que li e do que não li, porque tem um grande texto calado por baixo desta postagem pequena".

Tem sim. Eu vou escrever. Enquanto não o faço, fica um texto que poderia ser meu. Eu não quero perder. Mas eu não estou preparada.


Querida Karen,

Se você estiver lendo isso, significa que eu finalmente tomei coragem de enviar. Então, bom para mim. Você não me conhece muito bem, mas se me deixar, verá que tenho uma tendência a falar o quão difícil é escrever para mim. Mas isto, isto foi a coisa mais difícil que já tive que escrever.

Não há um jeito fácil de dizer isso, então vou logo dizê-lo. Eu conheci alguém. Foi um acidente. Eu não estava procurando e não estava preparado. Foi a tempestade perfeita, ela disse uma coisa, eu disse outra. A única coisa que sei é que queria passar o resto da minha vida naquela conversa. Agora tenho a intuição de que ela é a mulher da minha vida. Ela é completamente doida, de um jeito que me faz sorrir. Altamente neurótica. Requer uma grande manutenção.

Ela é você, Karen. Essa é a boa notícia. A ruim é que não sei como ficar com você nesse momento. E isso me assusta pra caralho. Porque se eu não estiver com você agora, tenho essa sensação de que nós nos perderemos. É um grande e mal mundo, cheio de reviravoltas, e as pessoas tem o costume de piscar e perder o momento… o momento que poderia mudar tudo. Eu não sei o que está acontecendo entre a gente, e não posso te dizer por que você deveria gastar um pouco de fé em alguém como eu… Mas, droga, você cheira bem, como o lar. E você faz um excelente café. Isto deve valer de alguma coisa, certo? Me liga.


Infielmente seu, Hank Moody.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios

Acordo e vejo que recebi e-mail de um amigo, dizendo que quer me mandar dois trechos do livro que ele está lendo. O livro é "Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios", do Marçal Aquino.

O primeiro, diz ele, combina com meu blog. O segundo, com a vida. Abaixo, os dois.

O nome dela é Sandra, eu disse.

No livro que eu tinha na mão, o único sobrevivente da minha biblioteca, Schianberg escreveu: o detalhe é alma de toda fantasia. Qualquer detalhe, por inusitado ou pervertido que seja. Daí os fetiches. A particularidade do desejo. E um detalhe pode tornar-se muitas vezes mais excitante que a própria fantasia. Dei razão a Schianberg ao presenciar a reação do meu vizinho.

Sandra, ele repetiu, alheio.

Como se saboreasse o nome. Seus olhos brilharam com promessas de noites solitárias de luxúria. Daí, voltou a si e me olhou. E disfarçou, inclinando nos autos uma informação desnecessária.


***

Tem sido assim os meus dias. Sou mais feliz que 97,6% da humanidade, nas contas do professor Schianberg. Faço parte de uma ínfima minoria, integrada por monges trapistas, alguns matemáticos, noviças abobadas e uns poucos artistas, gente conservada no caldo da mansidão à custa de poesia ou barbitúricos. Um clube de dementes de categorias variadas, malucos de diversos calibres. Gente esquisita, que vive alheia nas frestas da realidade. Só assim conseguem entregar-se por inteiro àquilo que consagraram como objeto de culto e devoção. Para viver num estado de excitação constante, confinados num território particular, incandescente, vedado demais. Uma reserva de sonho contra tudo que não é doce, sutil ou sereno. É o mais próximo da felicidade que podemos experimentar, sustenta Schianberg.

Não sei que nome você daria a isso.

Bem, não importa muito, chame do que quiser.

Eu chamo de amor.  
   


O livro, diz ele, vai me emprestar. Eu aguardo.