"Escrevo por ter nada a fazer no mundo:
sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens"
Clarice Lispector
o dia que terminamos foi dos mais doloridos da minha vida. já estive em velório de gente querida, e isso é uma dor imensa, mas e quando é tudo sua escolha, está tudo nas suas mãos? e o céu estava em tons de laranja, o sol se escondia lá fora e eu via tudo pela janela daquele apartamento que agora não era mais nosso. eu chorei, ele chorou, e sabíamos que ainda existia amor ali, mas eu não poderia continuar com a dúvida do 'o que é que eu tô fazendo da minha vida'.
algo que eu admiro nas pessoas é coragem pra mudar as situações. eu teria mil motivos para continuar, e o maior deles: era confortável. era bom, mas nesses anos de vida a dois eu me perdi de mim – a gente se doa quando ama, não? - e eu precisava me encontrar, e nessa busca (ai que brega) eu não poderia foder a vida de alguém que me amava. então, foi assim: siga seu caminho, que eu vou seguir o meu.
chorei por dois dias seguidos: no ônibus, na fila do banco, antes de dormir. escolhi encarar a tristeza, agarrá-la, vivê-la até que ela se esgotasse, chorar até não ter mais lágrimas. no final do segundo dia um amigo me chamou para sair, tomei um porre e as coisas começaram a clarear.
decidi, então, curtir os homens, as mulheres, a vida. eu sei que as pessoas que têm um namorado, um noivo, um marido, uma mulher, também aproveitam a vida. mas é preciso estar preparado pra isso e eu, de verdade, não estava. foi uma das poucas vezes que a razão falou mais alto em mim. por enquanto tem dado certo.
e eu, que não sei pensar sem escrever, estou aqui.