Passado o encanto e toda a minha cega admiração, ocorreu-meu que obviamente eu não te amo.
Neste momento, olhando de longe, posso ver o que me impede de enlouquecer e te desejar para sempre ao meu lado, e o detalhe que me afasta de você é ao mesmo tempo o que desperta em mim o desejo de querer te salvar de você mesmo: sua superficialidade, que aos outros soa como normalidade, provavelmente. A mim, beira a frieza.
Não quero me colocar à margem dos seres humanos, mas sei dos meus precipícios. Cada um tem o seu, e eis o meu: a entrega.
O exemplo é simples: você escreveria a qualquer pessoa que suave ou profundamente tocasse sua alma. Eu só escrevo àqueles que me tiraram noites de sono. Defeito ou virtude, não se sabe.
Fato é que sua leveza me aflige. Do meu mundo, concluo que a seu ver não sou ninguém além de uma pessoa minimamente interessante. Seria bom, se eu fosse menos neurótica, se eu inventasse menos, se eu desejasse menos de você (a meu modo). Mas chegamos ao ponto em que quero não ser apenas a pessoa (mais uma) que te tira sorrisos. Quero ser algo de incontrolável e perturbador em sua vida, e temo que você não esteja preparado para minhas tempestades em copo d'água.
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domingo, 26 de fevereiro de 2012
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
por mais que as coisas mudem
Eu nunca achei que fosse um dia concluir coisas na minha vida: cursos, namoros. Mania (ou loucura, ou preguiça) minha deixar tudo pela metade. E mais uma vez, eu ia tentar uma coisa nova. Dessa vez, curso universitário - o segundo da minha vida. E concluí, o que é muito pra uma pessoa como eu. Isso - esse curso e esses anos que vivi entre 2006 e 2010 - foram importantíssimos parta mim. Disso tudo, tem algo peculiar que gosto de retomar à memória: quando eu cheguei àquela cidade que não era a minha para fazer a matrícula na faculdade, quando me pintaram a cara e escreveram meu nome na lista do curso que seria uma das únicas coisas que eu levaria até o fim, quem estava do meu lado era você. Nem pai, nem mãe, nem avó, só você com seu uniforme do colégio. Eu lembro do pôr-do-sol que a gente viu aquele dia, de dentro do ônibus, os últimos raios batendo na janela. A vida é assim, as pessoas mudam, aparecem outras, mas quem mereceu marcar uma época, marcou. Você vai ser pra mim sempre o menino com quem sentei na calçada um dia e esperei dar a hora do seu ônibus chegar na rodoviária. Por mais que o tempo passe, por mais que as coisas mudem.
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
de jeito
Concluo: o problema não são os homens que não sabem ao certo o que fazer com uma mulher; são os que sabem demais.
Homens que precisam de instrução existem aos montes. Que mulher nunca teve que orientar: "mais devagar", "menos força", "beija aqui"? Absolutamente normal.
Homens que precisam de instrução existem aos montes. Que mulher nunca teve que orientar: "mais devagar", "menos força", "beija aqui"? Absolutamente normal.
Mas aquelas já encontraram um homem que sabia exatamente o que fazer irão concordar: impossível não cair de quatro, literalmente ou não, quando se está nas mãos de um homem desses. Tal sabedoria não tem regras ou fórmulas: varia de pessoa para pessoa. É química e encaixe.
Conheci um homem assim: não precisou de palavras para me convencer. Eu não precisei saber de detalhes para querer. E ainda que eu só soubesse que ele fuma e gosta de coca-cola, continuaria querendo, por mais que depois de uma, duas, três vezes, não houvesse conversa alguma. O que ele sabia fazer comigo me bastava.
Quanto aos que não sabem: eles aprendem, e tendem a ficar ótimos depois de um tempo. Mas aqueles que não precisam de instruções são absurdamente irresistíveis. E inesquecíveis.
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
apelo (desesperado, desiludido e brega)
Essa carta é a prova do quão covarde eu sou, mas mostra ainda que existe algo de intenso aqui dentro: uma parte de mim que necessita de um rumo, de uma enxurrada de lágrimas e de um rabisco que acabe com tudo. Se eu tivesse coragem, falaria. Se eu fosse prática, sumiria da sua vida. Não sou.
Ontem a noite eu te olhava enquanto você dormia e então pensei: isso é bastante grave. Eu não sei se o que acontece entre nós dois permite esse tipo de reação, mas está me acontecendo e eu não pude evitar. Senti, ontem a noite, medo de perder o controle da situação. Mas quando se tem medo de perder o controle da situação é porque já não se tem mais controle algum, não é?
Então, saiba: eu estou saindo da sua vida, mas faço questão de me despedir. É meu jeito de te dizer que você teve uma importância grave o suficiente para me fazer sentir medo. Essa carta é ainda a prova de que minha maior angústia são os sentimentos que ficam guardados. E de te dizer assim, calada, orgulhosa, desesperada, desamparada, que se há algo em você que possa mudar isso tudo, por favor: faça logo.
(Eu ontem comentei com um amigo: 'não canso de ler a carta para Karen' e ele disse 'faça a sua'. Pois.)
(Eu ontem comentei com um amigo: 'não canso de ler a carta para Karen' e ele disse 'faça a sua'. Pois.)
quinta-feira, 28 de julho de 2011
pretensão minha
Cinco anos e eu ainda lembro da última vez que te vi. Você descrevia a mulher da sua vida e era eu nas suas palavras. Depois eu falei do único homem capaz de me fazer pensar em trocar alianças, ter filhos e passar anos e anos dividindo a vida, e era você; mas o dia já vinha amanhecendo, o seu ônibus iria chegar e fingimos que era uma loucura desejar alguém assim: igual a mim, igual a você. Fingimos também que não falávamos de nós mesmos, ou talvez não soubéssemos realmente que falávamos de nós.
Seu ônibus chegou e eu te vi indo embora naquela rua que ficava azul pelo fim da madrugada. Eu fui pra casa e comi uma maçã. Você dormiu no ônibus (eu sei porque no dia seguinte você me contou). Nós não nos preocupávamos com nós dois.
Seu ônibus chegou e eu te vi indo embora naquela rua que ficava azul pelo fim da madrugada. Eu fui pra casa e comi uma maçã. Você dormiu no ônibus (eu sei porque no dia seguinte você me contou). Nós não nos preocupávamos com nós dois.
Hoje arrumando as malas eu pensei nas últimas coisas que você me disse quando eu falei que ia te ver. “Acho que você não vai gostar mais de mim. Eu mudei muito”. E logo pude imaginar nós dois nessa tarde de sol que vai ser de cinco anos depois. À noite estaremos já bêbados e tão íntimos de novo que nada mais vai ser novidade: mal perceberemos os cinco anos de distância desde a última vez. Mas à tarde, eu sei: vai ser tudo novo.
Eu faço mentalmente a lista de coisas que preciso levar e penso nas suas palavras. Ainda assim, arrumo as malas. Porque eu, como você sabe, não mudei; e continuo acreditando que você é aquela pessoa que sabe disfarçar muito bem quem realmente é. E que na minha presença, tudo muda para melhor.
quinta-feira, 21 de julho de 2011
marlboro vermelho
Bonito. Mas de uma beleza tão monótona e sustentada por camisas perfeitamente passadas e abotoadas, tênis limpos e amarrados, cabelo e barba sempre tão bem aparados, que não me despertava qualquer interesse. Nenhuma tatuagem a me intrigar por baixo da manga da camisa quando um gesto brusco a tira do lugar, nenhum dia com olheiras de ressaca, nenhuma conversa ao celular que o fizesse se afastar dos olhares e ouvidos, nenhuma cicatriz: tudo perfeitamente combinando para que ele merecesse titulo de bom filho, bom namorado, bom funcionário, bom rapaz.
Todo mundo precisa ter algo que destoe na séria composição de pessoa adulta, feliz e bem resolvida. Algo que denuncie que em algum momento a racionalidade desandou. Tem que haver algo de obscuro, de surpreendente, que aponte uma tristeza ou insanidade, que desperte vontade de investigar, de querer conhecer, perguntar 'como isso te aconteceu?' e querer mais; e não tinha. Mas era bonito, e eu queria que tivesse.
Era tarde e eu estava imersa no meu mundo, fora do nosso ambiente sério e cercado de pessoas conhecidas, naquele bar bagunçado, onde doces, balas e maços de cigarros se misturavam no balcão ao lado de pacotes de amendoim e a voz dos homens conversando na calçada e a risada das mulheres ao celular não me deixava ficar totalmente atenta ao que acontecia ao meu redor. Eu pagava minha coca-cola quando ouvi a voz – que também era perfeita, um pouco rouca e nunca fora do tom: “um Marlboro vermelho”.
A camisa com os botões fechados, perfeitamente passada. O gesto tímido. A voz dentro do tom, os tênis brancos, o relógio de pulso e o Marlboro vermelho na mão: não combinava.
Era a destonancia que eu precisava para no momento seguinte imaginá-lo debruçado na sacada, sem camisa, despenteado, sorrindo de um jeito que eu nunca vi, e fumando. Enquanto eu, na cama, ainda me recompunha.
segunda-feira, 4 de julho de 2011
esse cara (que nunca será meu)
"ele está na minha vida porque quer
e eu estou pro que der e vier"
Me pego pensando em comprar bombons para o rapaz que nunca será meu. Há quase quatro dias ele não aparece e eu só quero saber de vê-lo sorrir. Logo afasto a ideia dos bombons, e do sorriso dele, e da minha saudade do sorriso dele, porque ele nunca será meu e eu não posso me deixar enganar pela ideia de querer fazê-lo feliz.
Ele é o cara da música do Caetano, que chega ao anoitecer e quando vem a madrugada ele some.
Ele não sabe da minha vida além daquilo que ele vê entre quatro paredes, e eu tampouco sei da dele. Quando deixo escapar um detalhe que vai além das furtivas cenas que acontecem entre nós dois, me sinto fraca e constrangida por, em um momento, ter perdido o controle de toda a situação, por cometer qualquer deslize que denuncie afeto, ternura, paixão.
Quando ele vem me contar como foi seu dia, eu desconverso e só beijo-o e então faço com que se cale, porque eu não quero saber dos detalhes que também nunca serão meus, das pessoas da vida dele que nunca vão fazer parte da minha vida e das vontades que ele nunca vai realizar ao meu lado.
Ele não sabe do meu passado, da minha família ou do meu trabalho, mas conhece cada poro do meu corpo, cada marca, cada detalhe, cada reação, e eu penso que é nessas horas, quando ele mal consegue dizer meu nome, e quando eu não sei ao certo a cor dos olhos dele, que ele é de verdade meu. E nessas horas a mim pouco importa que em tantas outras horas fora dali ele nunca seja meu.
terça-feira, 28 de junho de 2011
desconhecido
A primeira imagem que surge diante dos meus olhos é a janela. Minha janela. Meu quarto; e a sensação é de alívio. Atrás de mim, quase na minha nuca, sinto a respiração. Ainda diante de mim, bem embaixo da janela, está a prova do crime: minha calcinha. É o que minha vista alcança: minha janela e minha calcinha. A memória se esforça para, a partir de então, compor a cena: o antes, o durante.
A festa. O rapaz de branco. De branco, com um copo na mão e me olhando. Nós dois em um banheiro que não tinha luz. Eu tentando ter certeza de que a porta estava trancada. A mão na minha cintura, a pressa, o riso. Meu sapato no chão. A caminhada até a minha casa. Eu acordando na minha cama.
A mão na minha cintura me encoraja. Viro, arrumo meus cabelos. Os olhos dele já estão abertos. Castanhos. Bonitos. Ele sorri um sorriso lindo. E me beija. Sorrio de volta, agradecida. Aliviada.
A primeira vez em que se acorda com receio de olhar para a pessoa ao lado é mesmo inesquecível.
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