quinta-feira, 4 de agosto de 2011

apelo (desesperado, desiludido e brega)

Essa carta é a prova do quão covarde eu sou, mas mostra ainda que existe algo de intenso aqui dentro: uma parte de mim que necessita de um rumo, de uma enxurrada de lágrimas e de um rabisco que acabe com tudo. Se eu tivesse coragem, falaria. Se eu fosse prática, sumiria da sua vida. Não sou.

Ontem a noite eu te olhava enquanto você dormia e então pensei: isso é bastante grave. Eu não sei se o que acontece entre nós dois permite esse tipo de reação, mas está me acontecendo e eu não pude evitar. Senti, ontem a noite, medo de perder o controle da situação. Mas quando se tem medo de perder o controle da situação é porque já não se tem mais controle algum, não é?

Então, saiba: eu estou saindo da sua vida, mas faço questão de me despedir. É meu jeito de te dizer que você teve uma importância grave o suficiente para me fazer sentir medo. Essa carta é ainda a prova de que minha maior angústia são os sentimentos que ficam guardados. E de te dizer assim, calada, orgulhosa, desesperada, desamparada, que se há algo em você que possa mudar isso tudo, por favor: faça logo.


(Eu ontem comentei com um amigo: 'não canso de ler a carta para Karen' e ele disse 'faça a sua'. Pois.)

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

carta para Karen

Comentário sobre o post abaixo: "Gostei do que li e do que não li, porque tem um grande texto calado por baixo desta postagem pequena".

Tem sim. Eu vou escrever. Enquanto não o faço, fica um texto que poderia ser meu. Eu não quero perder. Mas eu não estou preparada.


Querida Karen,

Se você estiver lendo isso, significa que eu finalmente tomei coragem de enviar. Então, bom para mim. Você não me conhece muito bem, mas se me deixar, verá que tenho uma tendência a falar o quão difícil é escrever para mim. Mas isto, isto foi a coisa mais difícil que já tive que escrever.

Não há um jeito fácil de dizer isso, então vou logo dizê-lo. Eu conheci alguém. Foi um acidente. Eu não estava procurando e não estava preparado. Foi a tempestade perfeita, ela disse uma coisa, eu disse outra. A única coisa que sei é que queria passar o resto da minha vida naquela conversa. Agora tenho a intuição de que ela é a mulher da minha vida. Ela é completamente doida, de um jeito que me faz sorrir. Altamente neurótica. Requer uma grande manutenção.

Ela é você, Karen. Essa é a boa notícia. A ruim é que não sei como ficar com você nesse momento. E isso me assusta pra caralho. Porque se eu não estiver com você agora, tenho essa sensação de que nós nos perderemos. É um grande e mal mundo, cheio de reviravoltas, e as pessoas tem o costume de piscar e perder o momento… o momento que poderia mudar tudo. Eu não sei o que está acontecendo entre a gente, e não posso te dizer por que você deveria gastar um pouco de fé em alguém como eu… Mas, droga, você cheira bem, como o lar. E você faz um excelente café. Isto deve valer de alguma coisa, certo? Me liga.


Infielmente seu, Hank Moody.

domingo, 31 de julho de 2011

não quer ninguém ao seu lado

 até que a vida lhe prove o contrário

quinta-feira, 28 de julho de 2011

pretensão minha

Cinco anos e eu ainda lembro da última vez que te vi. Você descrevia a mulher da sua vida e era eu nas suas palavras. Depois eu falei do único homem capaz de me fazer pensar em trocar alianças, ter filhos e passar anos e anos dividindo a vida, e era você; mas o dia já vinha amanhecendo, o seu ônibus iria chegar e fingimos que era uma loucura desejar alguém assim: igual a mim, igual a você. Fingimos também que não falávamos de nós mesmos, ou talvez não soubéssemos realmente que falávamos de nós.

Seu ônibus chegou e eu te vi indo embora naquela rua que ficava azul pelo fim da madrugada. Eu fui pra casa e comi uma maçã. Você dormiu no ônibus (eu sei porque no dia seguinte você me contou). Nós não nos preocupávamos com nós dois.

Hoje arrumando as malas eu pensei nas últimas coisas que você me disse quando eu falei que ia te ver. “Acho que você não vai gostar mais de mim. Eu mudei muito”. E logo pude imaginar nós dois nessa tarde de sol que vai ser de cinco anos depois. À noite estaremos já bêbados e tão íntimos de novo que nada mais vai ser novidade: mal perceberemos os cinco anos de distância desde a última vez. Mas à tarde, eu sei: vai ser tudo novo.

Eu faço mentalmente a lista de coisas que preciso levar e penso nas suas palavras. Ainda assim, arrumo as malas. Porque eu, como você sabe, não mudei; e continuo acreditando que você é aquela pessoa que sabe disfarçar muito bem quem realmente é. E que na minha presença, tudo muda para melhor.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

marlboro vermelho

Bonito. Mas de uma beleza tão monótona e sustentada por camisas perfeitamente passadas e abotoadas, tênis limpos e amarrados, cabelo e barba sempre tão bem aparados, que não me despertava qualquer interesse. Nenhuma tatuagem a me intrigar por baixo da manga da camisa quando um gesto brusco a tira do lugar, nenhum dia com olheiras de ressaca, nenhuma conversa ao celular que o fizesse se afastar dos olhares e ouvidos, nenhuma cicatriz: tudo perfeitamente combinando para que ele merecesse titulo de bom filho, bom namorado, bom funcionário, bom rapaz.

Todo mundo precisa ter algo que destoe na séria composição de pessoa adulta, feliz e bem resolvida. Algo que denuncie que em algum momento a racionalidade desandou. Tem que haver algo de obscuro, de surpreendente, que aponte uma tristeza ou insanidade, que desperte vontade de investigar, de querer conhecer, perguntar 'como isso te aconteceu?' e querer  mais; e não tinha. Mas era bonito, e eu queria que tivesse.

Era tarde e eu estava imersa no meu mundo, fora do nosso ambiente sério e cercado de pessoas conhecidas, naquele bar bagunçado, onde doces, balas e maços de cigarros se misturavam no balcão ao lado de pacotes de amendoim e a voz dos homens conversando na calçada e a risada das mulheres ao celular não me deixava ficar totalmente atenta ao que acontecia ao meu redor. Eu pagava minha coca-cola quando ouvi a voz – que também era perfeita, um pouco rouca e nunca fora do tom: “um Marlboro vermelho”.

A camisa com os botões fechados, perfeitamente passada. O gesto tímido. A voz dentro do tom, os tênis brancos, o relógio de pulso e o Marlboro vermelho na mão: não combinava.

Era a destonancia que eu precisava para no momento seguinte imaginá-lo debruçado na sacada, sem camisa, despenteado, sorrindo de um jeito que eu nunca vi, e fumando. Enquanto eu, na cama, ainda me recompunha.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

tão banal

"O táxi dobrou a esquina, não houve tempo de dizer pr'!. Corríamos pela Barata Ribeiro, entrecruzamentos, travestis e o frenesi de Copacabana, mon amour
A voz do radialista encobria a seresta que badalava vadia do meu peito descabelado
Metíamos os pés pelas mãos, as mãos pelas pernas, as pernas abertas, calcinha rasgada
O motorista disfarçado de colunista social que participa da festa sem beber champanhe
Buzina ensandecido e o teu corpo se abrindo

Você não me detia, eu te metia
À espera do túnel
pra gozar em paz"


De um amigo.